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  • Foto do escritorTiãozinho Safrater

A creche como um espaço além do cuidado, e os impactos no desenvolvimento na primeira infância

cei - creche


A creche é, muitas vezes, a instituição na qual as crianças têm o primeiro contato com o mundo da educação formal, sendo vista como um estabelecimento voltado para o assistencialismo por muitas famílias que precisam trabalhar e não podem deixar seus filhos sozinhos em casa, já que estes necessitam de cuidados. A creche proporciona um ambiente acolhedor, onde se estimula a aprendizagem e o convívio com os semelhantes. É apontada por uma parcela da sociedade como uma importantíssima ação diante da condição de crianças como sujeitos de direitos, preparando-as para o início do aprendizado e da convivência social.


O desenvolvimento de determinadas habilidades é necessário para a autonomia dos indivíduos; algumas dessas habilidades relacionam-se às funções executivas e compreendem a capacidade desse indivíduo de refletir antes de agir, trabalhando mentalmente diferentes ideias, solucionando desafios, reconsiderando opiniões e evitando distrações. As chamadas funções executivas, citadas anteriormente, são compostas por três dimensões consideradas fundamentais: a memória de trabalho, o controle inibitório e a flexibilidade cognitiva — habilidades que atuam de forma conjunta e não podem ser dissociadas. Durante a primeira infância acontece o desenvolvimento de áreas cerebrais que favorecem a aquisição das habilidades relacionadas às funções executivas. Esse amadurecimento acontece em função de experiências vividas em interações sociais, que se tornam determinantes para o desenvolvimento posterior. Segundo o Comitê Científico do Núcleo Ciência Pela Infância, há que se ressaltar a influência de variáveis ambientais e o fato de que cada um se desenvolve no seu ritmo. Situações vividas pelas crianças podem afetar de forma positiva ou negativa o desenvolvimento das funções executivas, ou seja, o controle consciente dos pensamentos, ações e emoções não ocorre de forma independente do contexto no qual a criança está inserida. Estabelecer vínculos positivos entre crianças e adultos cuidadores, na família ou na escola, colabora para o desenvolvimento saudável da criança. Interações sociais satisfatórias devem incluir incentivo e orientação ao longo do processo de aquisição de autonomia pelas crianças. Na primeira infância, é necessário dar às crianças a oportunidade de usar e aprimorar o funcionamento executivo de forma a que consigam controlar suas reações e emoções envolvidas no planejamento e realizar tarefas. Cabe aos adultos a função de incentivar o uso das funções executivas pelas crianças, até que estas consigam fazê-lo de forma automática. Relações de confiança e ambientes favoráveis são extremamente necessários, já que sua ausência pode comprometer o desenvolvimento dessas habilidades. Expor as crianças a situações estressantes pode afetar a dinâmica dos circuitos cerebrais, prejudicando não só a aquisição de habilidades de funcionamento executivo como também o uso de capacidades já construídas.


Ambientes familiares e escolares que favoreçam o desenvolvimento e a aprendizagem das habilidades também são necessários, pois a condição socioemocional da criança é marcada pela qualidade de suas relações. A criação de vínculos e interações sociais, além de proporcionar um ambiente seguro, possibilita a aquisição das funções executivas de forma gradual. A necessidade de ofertar tais condições ambientais favoráveis é reafirmada no estudo intitulado “Conectando o cérebro ao restante do corpo: o desenvolvimento na primeira infância e a saúde ao longo da vida estão profundamente interligados”. Este estudo trata da relevância que o acesso a recursos essenciais e relacionamentos pode ter na construção de desenvolvimentos positivos, uma vez que adversidades podem interromper sistemas biológicos responsáveis pela saúde e bem-estar, principalmente em casos de vulnerabilidade social.

Eventos que acontecem durante a primeira infância podem gerar efeitos substanciais, a curto ou longo prazo, em fatores como aprendizagem, comportamento e saúde física ou mental. Fatores estressores externos, como adversidades excessivas persistentes durante o início da vida, podem sobrecarregar os sistemas biológicos, levando a consequências que afetam até mesmo o desenvolvimento físico da criança, já que o corpo, ao se preparar para desviar de ameaças do meio em que vive, pode acabar “desviando” também a energia do crescimento e do desenvolvimento saudável.


Ambientes que promovem a saúde no início da vida constroem base sólida, porém a implementação de estratégias práticas a qualquer momento pode reduzir riscos. Apoiar relacionamentos responsivos e interações confiáveis reduz problemas. Políticas e programas que diminuam os encargos econômicos e psicossociais sobre as famílias e, consequentemente, reduzam sua fonte de estresse, aprimoram a capacidade que o adulto tem de fornecer cuidados responsivos, facilitando o desenvolvimento saudável da criança. Investir nos primeiros anos de vida pode resultar em sucesso para crianças, tanto na saúde quanto no aprendizado. O enfrentamento à pobreza, ao racismo, à violência, à instabilidade habitacional e à insegurança alimentar auxiliam a superar as barreiras estabelecidas e promovem base para o desempenho educacional e para a saúde mental e física ao longo da vida.


Alguns aspectos considerados centrais precisam fazer parte da instituição creche para tornar efetivo o comprometimento em promover o desenvolvimento integral das crianças.


A creche amplia as relações e o acesso a novas culturas, além de promover a equidade através do oferecimento de proteção, segurança e cuidado físico às crianças e acolhimento às famílias.


Na creche, as crianças ampliam seu desenvolvimento ao ter a oportunidade de brincar e interagir com outras crianças, adultos, seres vivos e objetos.


As crianças precisam protagonizar as ações vivendo experiências, fazendo escolhas e tomando decisões. É essencial, portanto, proporcionar acesso a bens culturais, alimentação adequada e oportunidades de aprendizagem através da frequência das crianças nas creches, especialmente tendo em vista que, em alguns casos, esses elementos não estão disponíveis a elas em decorrência de uma possível vulnerabilidade social. É notória a colaboração e a importância que a instituição creche representa nas vidas das crianças que a ela frequentam; ressalta-se ainda o potencial que esse espaço tem de criar experiências positivas para essas crianças, desde que atenda às peculiaridades de cada criança, tornando-as protagonistas do processo pedagógico.




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